segunda-feira, 9 de maio de 2011

A vida só é possível (re)inventada

Ele largou o livro em cima da mesa, e pôs-se a pensar. O exemplar, O Imaginário Cotidiano, de Moacyr Scliar, tinha acabado de ser adquirido. Era o único em sua estante das obras desse autor. Mas não fora sobre as historietas que integram o livro como um todo, criadas a partir de realidades cotidianas, por este escritor, que ele subitamente inclinara a cabeça.

Desde que de manhã, havia se levantado, percebia-se, mesmo que aparentemente que algo não estava bem consigo mesmo.

Tudo parece estar fora de seus exatos e respectivos lugares. Falta como que um sentido para a vida e as coisas, ponderou.

Fechado ainda em si, ficou assim durante um bom tempo, com as mãos recostadas e de rosto franzido.

Curioso perante a inopinada situação, O Imaginário Cotidiano, o observava de soslaio, como que querendo inteirar-se do caso. Até esbugalhou as pupilas, mas não descobrira nada, o que só aumentava mais ainda a sua curiosidade e aflição.

Sobre o que estará pensando, perguntou-se ansioso não tanto pela resposta, mas, e, sobretudo, pelo desejo de travar noite adentro uma conversar com o seu mais novo companheiro. Assunto dos mais variados e contemporâneos é que não iria faltar. 180 páginas de viagem ao reino das palavras, que fica logo ali – ao alcance dos olhos e das mãos.

Refeito da reclusão de si mesmo, disse peremptoriamente, enquanto arregalava os olhos e os deitava num ponto fixo. Desembestada. A vida está desembestada.

O homem precisa (re)inventar a vida.

Esta, como bem disse Cecília Meireles, só é possível reinventada.

Era exatamente isso o que eu estava começando a fazer.

Pensava numa maneira de recriá-la, e através disso, criar a mim mesmo, inventando um presente, um passado, uma história... Porque a vida, a vida só é possível reinventada. É assim, é com estes versos, que a autora remata o seu poema.

E levantando-se com uma expressão alegre e segura foi em direção a sua estante procurar o volume em que lera pela última vez, Reinvenção, de Cecília Meireles.

sábado, 5 de março de 2011

Instante

A vida
é tão tênue

A vida
é tão tênue

- Fumaça que
de um momento
para o outro
nada resta

The end

terça-feira, 1 de março de 2011

Memória

O sonho de ontem
me trouxe uma imagem
do cemitério vivo
do passado

Vivências antigas
de um tempo
que não mais é
por já ter sido

Foi um tempo
difícil e bom

Foi uma vida
amarga e doce aquela.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Contraste

Não é da vida
o doce privilégio da calma
a paz tão sonhada do paraíso
após a morte

As coisas em estado
de puro silêncio

Ou a felicidade artificiosa
(porque hipócrita)
que nos impõe a televisão

- O que é da vida
cotidianamente é feito de tumulto

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Versinho

- A poesia
é pra dizer em uma
palavra
o que você tentou
e não conseguiu exprimir
num calhamaço.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Baudelaireana

Uma flor medíocre e sem cor
furou a minha visão,
rasgou as minhas veias,
cortou os meus braços.

Uma flor medíocre e sem cor
apagou o meu sorriso,
escarneceu o meu gesto,
exacerbou o meu tédio.

Uma flor medíocre e sem cor
decepou a minha cabeça,
dilacerou o meu coração,
enforcou a minha alma...

Uma flor ridícula e sem cor.
Uma flor inútil,
uma flor estúpida,
sem cheiro sem petálas sem nome.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Fuga

Quero me perder numa estrada qualquer,
e me encontrar numa página de livro
Quando eu, mais tarde , sentar para ler
- longe do machado da violência.

Antes, quero ver o mar, andar na praia,
Distrair-me com as águas e o horizonte:
Como é belo o pôr do sol
Como é gostosa a música das ondas

Se a vida fosse uma paisagem...
Se a vida fosse uma brisa suave...

Vou me deitar debaixo de tua sombra.
Quando meus olhos se abrirem de manhã,
alimente ao menos minha alma,
com o sol do teu sorriso.