Ele largou o livro em cima da mesa, e pôs-se a pensar. O exemplar, O Imaginário Cotidiano, de Moacyr Scliar, tinha acabado de ser adquirido. Era o único em sua estante das obras desse autor. Mas não fora sobre as historietas que integram o livro como um todo, criadas a partir de realidades cotidianas, por este escritor, que ele subitamente inclinara a cabeça.
Desde que de manhã, havia se levantado, percebia-se, mesmo que aparentemente que algo não estava bem consigo mesmo.
Tudo parece estar fora de seus exatos e respectivos lugares. Falta como que um sentido para a vida e as coisas, ponderou.
Fechado ainda em si, ficou assim durante um bom tempo, com as mãos recostadas e de rosto franzido.
Curioso perante a inopinada situação, O Imaginário Cotidiano, o observava de soslaio, como que querendo inteirar-se do caso. Até esbugalhou as pupilas, mas não descobrira nada, o que só aumentava mais ainda a sua curiosidade e aflição.
Sobre o que estará pensando, perguntou-se ansioso não tanto pela resposta, mas, e, sobretudo, pelo desejo de travar noite adentro uma conversar com o seu mais novo companheiro. Assunto dos mais variados e contemporâneos é que não iria faltar. 180 páginas de viagem ao reino das palavras, que fica logo ali – ao alcance dos olhos e das mãos.
Refeito da reclusão de si mesmo, disse peremptoriamente, enquanto arregalava os olhos e os deitava num ponto fixo. Desembestada. A vida está desembestada.
O homem precisa (re)inventar a vida.
Esta, como bem disse Cecília Meireles, só é possível reinventada.
Era exatamente isso o que eu estava começando a fazer.
Pensava numa maneira de recriá-la, e através disso, criar a mim mesmo, inventando um presente, um passado, uma história... Porque a vida, a vida só é possível reinventada. É assim, é com estes versos, que a autora remata o seu poema.
E levantando-se com uma expressão alegre e segura foi em direção a sua estante procurar o volume em que lera pela última vez, Reinvenção, de Cecília Meireles.